CRNICA, Aquarelas, 1859

Aquarelas

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente
  em O
    Espelho
  , Rio de Janeiro, 11 e 18/09 e 9, 16 e 30/10/1859.

I

OS
  FANQUEIROS LITERRIOS

No  isto uma stira
  em prosa. Esboo
  literrio apanhado nas projees sutis dos caracteres, dou aqui apenas uma
  reproduo do tipo a que chamo em meu falar seco de
    prosador novato -- fanqueiro literrio.

A fancaria literria  a pior
  de todas as fancarias.  a obra grossa, por vezes mofada, que se acomoda  ondulao das espduas
    do paciente fregus. H de tudo nessa loja manufatora do talento -- apesar da raridade da tela
      fina; e as vaidades sociais mais exigentes podem vazar-se, segundo as suas aspiraes, em uma ode ou discurso parvamente retumbantes.

A fancaria literria poder
  perder pela elegncia suspeita da roupa feita, mas nunca pela exigidade dos gneros.
    Tomando a tabuleta
      por base do silogismo comercial  infalvel chegar logo  proposio menor, que  a
        prateleira guapamente atacada a fazer cobia
  s modstias mais insuspeitas.

 lindo comrcio. Desde Jos Daniel, o
  apstolo da classe -- esse modo de vida tem
    alargado a sua esfera -- e, por mal de pecados, no promete ficar aqui.

O fanqueiro literrio  um tipo curioso.

Falei
  em Jos Daniel. Conheceis
  esse vulto histrico? Era
  uma excelente organizao que se prestava perfeitamente a autpsia. Adelo ambulante da
    inteligncia, ia farto como um ovo, de feira em feira, trocar pela enzinhavrada moeda o
      pratinho enfezado de suas lucubraes
        literrias. No se cultivava impunemente aquela amizade; o folheto esperava
      sempre os incautos, como a Farslia hebdomadria das bolsas mal avisadas.

A audcia ia mais
  longe. No contente de suas especulaes pouco airosas, levava
    o atrevimento a ponto de satirizar os prprios fregueses -- como em
      uma obra em que embarcava, diz ele, os tolos de Lisboa,
        para uma certa ilha; a ilha era, nem mais nem menos, a algibeira do poeta.  positiva a aplicao.

Os fanqueiros modernos no vo  feira;
   um pudor. Mas que de compensaes! No se prepara
    hoje o folheto de aplicao moral contra os costumes. A vereda  outra;
    exploram-se as folhinhas e os preges
      matrimoniais e as odes deste natalcio ou daqueles desposrios. Nos desposrios
   ento um perigo; os noivos tropeam no
    intempestivo de uma rocha tarpia antes mesmo de entrar no Capitlio.

Desposrio, natalcio ou batizado, todos esses
  marcos da vida so pretextos de inspirao
  s musas fanqueiras.  um eterno gnesis a referver por todas
  aquelas almas (almas!) recendentes de zuarte.

Entretanto, esta calamidade
  literria no  to dura para uma parte da sociedade. H quem se julgue motivo de cuidados
    no Pindo -- assim
      como pretenses a semideus da antiguidade;  um soneto ou uma alocuo recheadinha de
        divagaes

acerca do gnesis de uma raa -- sempre eria os colarinhos a certas
  vaidades que por a pululam -- sem tom nem som.

Mas entretanto --
  fatalidade! -- por muito consistentes que sejam essas iluses, caem sempre diante das
    conseqncias pecunirias; o fanqueiro
      literrio justifica plenamente o verso do poeta: no arma do louvor, arma do dinheiro. O entusiasmo da ode mede-o ele
    pelas possibilidades econmicas do elogiado. Os banqueiros so ento os
    arqutipos da virtude sobre a terra;
    tese difcil de provar.

Querendo imitar os espritos
  srios, lembra-se ele de colecionar os seus disparates, e ei-lo que vai de carrinho e
    almanaques na mo --
      em busca de notabilidades sociais. Ningum se nega a um homem que lhe sobe as escadas
        convenientemente vestido, e discurso na ponta
          dos lbios. Chovem-lhe assim as assinaturas. O livrinho  prontificado e sai a lume. A teoria do embarcamento
            dos tolos  ento posta em execuo;
              os nomes das vtimas subscritoras vm sempre
                em ar de escrnio no pelourinho de uma lista-eplogo. , sobre queda,
          coice.

Mas tudo isso  causado pela
  falta sensvel de uma inquisio literria! Que espetculo no seria ver evaporar-se em uma fogueira inquisitorial
    tanto pio encadernado que por a anda enchendo as livrarias!

Acontece com o talento o mesmo
  que acontece com as estrelas. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante
    do dossel azul que nos cerca o
      planeta; mas l vem o astrnomo que diz muito friamente:
  -- Nada! isto que parece flores debruadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma
    camada etrea, -- so simples globos
      luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com gua.

At aqui as massas
  tinham o talento como uma faculdade caprichosa, operando ao
    impulso da inspirao, santa sobretudo em todo o seu poder moral.

Mas c as espera o
  fanqueiro. Nada! o talento  uma simples mquina em que no
    falta o menor parafuso, e que se move ao impulso de uma vlvula onipotente.

 de desesperar de todas as iluses!

Em Paris, onde esta classe  numerosa,
  h uma especialidade que ataca o teatro. Renem-se meia dzia em um caf e a
  vo eles de colaborao alinhavar o seu vaudeville quotidiano. A esses milagres de
    faculdade produtiva se devem tantas banalidades que por l rolam no meio
  de tanto e to fino esprito.

Aqui o fanqueiro
  no tem por ora lugar certo. Divaga como a abelha de flor em
    flor em busca de seu mel e quase sempre, mal ou bem, vai tirando suculento resultado.

Conhece-se o fanqueiro literrio entre muitas
  cabeas pela extrema cortesia.  um tique.
    No h homem de cabea mais mbil, e espinha dorsal mais flexvel; cumprimentar para ele  um preceito eterno; e ei-lo que o faz  direita e  esquerda; e,
      coisa natural! sempre lhe cai um fregus nessas cortesias.

O fanqueiro literrio tem em si o
  termmetro das suas alteraes financeiras;
   a elegncia das roupas. Ele vive e trabalha para comer bem e ostentar. Bolsa florescente, ei-lo dndi
    apavoneado -- mas sem vaidade; l
      protesta o chapu contra uma assero que se lhe possa fazer nesse
  sentido.

A Buffon escapou
  esse animal interessante; nem Cuvier lhe encontrou osso ou fibra perdidos em terra
    antediluviana. Por mim, que no fao mais
      que reproduzir em aquarelas as formas grotescas e sui generis do tipo, deixo ao leitor curioso essa enfadonha investigao.

Uma ltima palavra.

O fanqueiro
  literrio  uma individualidade social e marca uma das aberraes dos
    tempos modernos. Esse moer contnuo do esprito, que faz da inteligncia uma
    fbrica de Manchester, repugna  natureza da prpria intelectualidade. Fazer do talento uma
      mquina, e uma
        mquina de obra grossa, movida pelas probabilidades financeiras do resultado,  perder a dignidade do talento, e o pudor da conscincia.

Procurem os caracteres srios abafar
  esse estado no estado que compromete a sua posio e o seu futuro.

II

O PARASITA

I

Sabem de uma certa erva, que desdenha a
  terra para enroscar-se, identificar-se com as altas rvores?  a parasita.

Ora, a sociedade, que tem mais de uma afinidade
  com as florestas, no podia deixar de ter em
    si uma poro, ainda que pequena de parasitas.
      Pois tem, e to perfeita, to igual, que nem mesmo mudou de nome.

 uma longa e
  curiosa famlia, a dos parasitas sociais; e fora difcil assinalar
    na estreita esfera das aquarelas -- uma relao sintica das diferentes
      variedades do tipo. Antes sobre a torre, agarro apenas na passagem
        as mais salientes e no vou mergulhar-me no fundo e em todos os recantos do oceano
          social.

H, como disse, diferentes espcies de
  parasitas.

O mais vulgar e o
  mais conhecido  o da mesa; mas h-os tambm em literatura, em
    poltica e na igreja. 
    praga antiga, e raa cuja origem se prende  noite dos tempos, como diria qualquer
      historiador en herbe. Da
  ndia, essa av das naes, como diz um escritor moderno, so poucas as noes a respeito; e no posso marcar aqui com preciso o desenvolvimento dessa casta curiosa
    no velho pas. Em Roma, onde lemos
      como num livro, j Horcio comia as sopas de Mecenas, e banqueteava alegremente no triclinium.  verdade que lhe pagava em longa
        poesia; mas, nesse tempo, como ainda hoje,
          a poesia no era ouro em p, e este  grande estrofe de todos os tempos.

Mas, trguas  historia.

Tenho aqui como alvo esboar em traos
  ligeiros as formas mais proeminentes da
    individualidade; entremos pois no estudo -- sem mais prembulo.

Devo comear pelo
  parasita da mesa, o mais vulgar? H talvez pouco a dizer -- mas esse pouco mesmo
    revela altamente os traos arrojados desta fisionomia social.

Debalde se procuraria
  conhecer as regies mais adaptadas  economia vital deste
    animal perigoso. Intil. Ele vive por toda parte em que h ambiente de porco assado.

Tambm  a onde ele desenvolve melhor
  todas as suas faculdades; -- onde se sente a son
    aise, como diria qualquer label encadernado em palet de inverno.

Perfeito parasita
  deve ser perfeito gastrnomo; mesmo quando no goze esta faculdade por vocao
  do bero,  um resultado da prtica,
    pela razo de que o uso do cachimbo faz a boca torta.

Assim,
  o parasita jubilado, o bom parasita, est muito acima dos outros animais.
  Olfato delicado, adivinha a duas lguas de distncia a qualidade de um bom prato; paladar
    suscetvel, -- sabe absorver com todas as regras de arte -- e no educa o seu estmago
      como qualquer
        aldeo.

E
  como no ser assim, se ele no tem outro cuidado nesta vida? e se os limites da
    mesa redonda so os horizontes das suas aspiraes?

 curioso v-lo
  na mesa, mas no menos curioso  v-lo nas horas que precedem s sees gastronmicas. Entra
    em uma casa ou por costume ou per
      accidens, o que aqui quer dizer inteno formada com todas as circunstncias agravantes da
        premeditao, e superioridade das
          armas. Mas suponhamos que vai a uma casa por costume.

Ei-lo que entra, riso
  nos lbios, chapu na mo, o vcuo no estmago. O dono da
    casa, a quem j fatiga aquela visita diria, sada-o constrangido e com um riso amarelo. Mas
      isso no  decepo; to pouco no desarma um bravo daquela ordem. Senta-se e
        comea a
          relatar notcias do dia, entremeadas de algumas da prpria lavra, e curiosas -- a
            atrair a feio vacilante do hspede. Daqui um criado que vem dar o
              sinal de combate.  o alvo a que visava o alarme, e ei-lo que vai imediatamente pagar-se de
                uma tarefa de almanaque, to custosamente exercida.

Se porm ele entra per accidens, no  menos curiosa a cena. Comea por um pretexto
  que deve lisonjear as pessoas da casa conforme os seus
    fracos. Assim, se h a um autor dramtico, o pretexto  dar um parabns sobre a ltima
      pea representada dias antes. Sobre este molde, tudo o mais.

Se s vezes no h
  um pretexto srio, no trepida ainda o parasita; h sempre um de lado, como substantivo: saber da sade do amigo.

Mas, entra ele;
  dado o pretexto, senta-se e comea a desenrolar toda a retrica que pode inspirar um
    estmago vazio, um Jeremias interno.
      Segue-se depois, pouco mais ou menos, a mesma cena. No fim est sempre como orla de horizonte uma mesa
        mais ou menos apetitosa, onde a reao se opera largamente.

H, porm, pequenas desgraas, acidentes
  inesperados na vida do parasita da mesa.

Entra ele em uma casa onde
  espera almoar folgado; -- faz as primeiras saudaes e vai corar a plula ao seu caro
    hspede. Um certo
      ranger de dentes, porm, comea a agit-lo, um ranger particular que indica um estado mais calmo aos estmagos
        da casa.

-- Ento como vai? Sinto que chegasse agora; se mais
  cedo viesse, almoava comigo.

O parasita fica de cara 
  banda; mas no h remdio;  necessrio sair
    com decncia e no dar a entender o fim que o levou ali.

Estas eventualidades, estas pequenas
  misrias, longe de serem decepes, so como o cheiro da plvora inimiga para os soldados, um incentivo na
    ao.  uma ndole miservel a desse corpo leviano em que s h animalidade e estmago; mas,
      entretanto,  necessrio aceitar essas criaturas tais como so -- para aceitarmos a
        sociedade tal como ela . A sociedade no  um grupo de que uma parte devora a outra? Eterno antagonismo das
          condies humanas.

O parasita da mesa uniformiza o exterior
  com a importncia do hspede; um cargo elevado pede uma luva de pelica, e uma
  botina de
    polimento.  mesa no h ningum mais atencioso; -- e como um conviva alegre, aduba os guisados
      com punhados de sal mais ou menos saborosos.

 uma retribuio razovel --
  dar de comer ao esprito de quem d de
    comer ao corpo.

Aqui no h
  desaire, h uma troca recproca que prova que o parasita tem suscetibilidades em alto
    grau.

Estes
  traos, mais ou menos exatos, mais ou menos distintos, do aqui uma pequena
    idia do parasita da mesa; mas esta variedade do tipo  absorvida por outras de uma
      importncia mais alta. Aqui  o parasita do corpo, os outros so os do esprito e da
        conscincia; -- aqui so os epicuristas  custa alheia, os outros so as
          nulidades intelectuais que se agarram  primeira tela de propriedades suculentas que lhe vai ao
            encontro.

So imperceptveis
  talvez estes lineamentos -- e acusam a acelerao do pincel; passemos s outras
    variedades do tipo onde achamos formas mais amplas e proeminncias mais
    distintas.

II

O
  PARASITA

O
  parasita literrio tem os mesmos traos psicolgicos do outro parasita, mas no
  deixa de ter uma afinidade latente com o fanqueiro literrio. A nica diferena est nos
    fins, de que se afastam lguas; aquele  porventura mais casto e no tem mira no resultado
      pecunirio,
  -- que, parece, inspirou o fanqueiro. Justia seja feita.

A imprensa  a mesa do parasita
  literrio; senta-se a ela com toda a sem-cerimnia; come e distribui pratos com o sangue
    frio mais alemo
      deste mundo -- diante da pacincia pblica -- que vacila sobre os seus eixos. Um amigo meu define perfeitamente este curioso animal; chama-o Vieirinha da literatura. Vieirinha, lembro ao leitor, 
        aquele personagem que todos tm visto em um drama nosso.

De
  feito, este parasita  um Vieirinha sem tirar nem pr; corteso das letras,
    cerca-as de cuidados, sem alcanar o menor favor das musas.

Segue-as por toda a parte, mas
  sem poder toc-las. S no sobe ao monte sagrado, porque  uma excurso difcil, e s dada
    a ps mais de
      ferro, e a vontades mais srias. Ali, ficam eles nas fraldas, soltando uma orquestra de gemidos, at que o
        velho cavalo os vem despedir com uma
          amabilidade de pata sofrivelmente acerba.

Um coice  sempre uma resposta
  s suas splicas... Represlia no
    caso.

Eterna lei das compensaes!

Entre ns o
  parasita literrio  uma individualidade que se encontra a cada
    canto.  fcil verific-lo. Pegais em um jornal; o que vedes de mais saliente? uma fila de
      parasitas que deitam sobre aquela mesa intelectual um chuveiro de prosa ou
      verso, sem dizer -- gua vai!

Verificai-o!

O jornal aqui no  propriedade, nem da
  redao nem do pblico, mas do parasita. Tem tambm o livro, mas o jornal  mais
    fcil de cont-los.

s vezes o parasita associa-se e cria um jornal
  prprio.

Aqui  que no h de escapar-lhe.

Um jornal todo entregue ao parasita,
  isto ,  um campo vasto todo entregue ao disparate!  o rei Sancho
    na sua ilha!

Ele pode parodiar o dito
  histrico l'tat c'est moi! porque as quatro ou seis pginas, na verdade, so dele, todas
    dele. Ele pode gritar ali, ningum lho impedir, ningum; uma vez que no ofenda a moral pblica. A polcia pra
      onde comea o intelectual e o senso comum; no so crimes no cdigo as ofensas a esses dois
        elementos da sociedade constituda.

Ora, sustentado assim pelos poderes, o
  parasita literrio invade, como o Huno moderno, a Roma da intelectualidade, com
  a decncia moral nos lbios, mas sem a decncia intelectual.

Tem pois o jornal, prprio ou no
  prprio, onde pode sacudir-se a gosto, garantido pelas leis. Se desdenha o
  jornal tem ainda o livro.

O livro!

Tem ainda o livro, sim. Meia dzia de folhas
  de papel dobradas, encadernadas, e numeradas  um livro; todos tm direito a
  esta operao simples, e o parasita por conseguinte.

Abrir esse livro e compuls-lo,
   que  herico e digno de pasmo. O que h por a, santo Deus! Se  um volume de versos,
    temos nada menos que uma coleo de pensamentos e de notas arranhadas laboriosamente em
      harpas selvagens como um tamoio. Se  prosa -- temos um amontoado de frases descabeladas entre si, segundo a opinio do autor.  muitas vezes um drama, um romance
        misterioso, de que o leitor no
          entende pitada. Se eu quisesse ferir individualidades, tocar em suscetibilidades, desenrolaria aqui um sudrio dessas invases na literatura; mas o meu fim  o
            individuo, e no um indivduo.

O parasita literrio vai ainda aos teatros. Esta
  inveno de recitar nos teatros, tirada da
    antiguidade grega, que levanta um bardo em um festim, como nos mostra a Odissia, abriu um precedente, e deu azo ao abuso. A autoridade, que 
      ainda a polcia, no indaga do mrito
        da obra, e quer apenas saber se h alguma coisa que fira a moral. Se
  no, pode invadir a pacincia pblica.

Todos os leitores esto de posse deste trao do
  parasita literrio. As salas dos nossos teatros tm repercutido imensas
    vezes com esses arranhamentos
      de lira. Basta bater palmas de um camarote e ter alguns
        exemplares para distribuio; a platia deve receber aquele aguaceiro
        intelectual.

O parasita est
  debaixo do cdigo.

Ora, o que admira
  no meio de tudo isto,  que sendo o parasita literrio o vampiro
    da pacincia humana, e o primeiro inimigo nacional, acha leitores, -- que digo?
      adeptos, simpatias, aplausos!

H quem lhes faa crer que alguma coisa
  lhes rumina na cabea como a Andr Chnier; eles, a quem j no faltava vontade
  de crer, aceitam,
    como princpio evidente, essa soluo do impossvel, que a parvoce lhe d de boa vontade.

Que gente!

Os tragos fisiolgicos do
  parasita so especiais e caractersticos. No podendo imitar os grandes homens pelo talento, copiam na
    postura e nas maneiras o que acham pelas gravuras e fotografias. Assumem um certo ar pedantesco,
      tomam um timbre dogmtico nas palavras; e, ao contrrio do fanqueiro, que tem
      a espinha dorsal mole e flexvel, -- ele no se curva nem se torce; a vaidade  o seu espartilho.

Mas, por compensao, h a modstia nas
  palavras ou certo abatimento, que faz lembrar esse ningum elogiado da
    comedia. Mas ainda assim vem a afetao; o parasita  o primeiro que esta cnscio de que  alguma coisa, apesar da sinceridade
      com que procura pr-se abaixo de zero.

Pobre gente!

Podiam ser homens de bem, fazer alguma
  coisa para a sociedade, honrar a musa nacional, contendo-se na sua esfera prpria;
    mas nada,
      saem uma noite da sua nulidade e vo por a matando a ferro frio...

 que tm o evangelho diante dos
  olhos...

Bem-aventurados os pobres de esprito.

O parasita ramifica-se e enrosca-se
  ainda por todas as vrtebras da sociedade. Entra na Igreja, na poltica e na
    diplomacia; h laivos dele
      por toda a parte.

Na Igreja, sob o pretexto do
  dogma, estabelece a especulao contra a piedade dos incautos, e das turbas. Transforma o
    altar em balco e a mbula
  em balana. Regala-se
   custa de crenas e supersties, de dogmas
    ou preconceitos, e l vai passando uma vida de rosas.

A histria  uma
  larga tela dessas torpezas cometidas  sombra do culto.

O parasita da Igreja, toda a Idade
  Mdia o viu, transformado em papa vendeu as absolvies, mercadejou as concesses,
    lavrou as bulas. Mediante
      o ouro, aplanou as dificuldades do matrimnio quando existiam; depois levantou
      a abstinncia alimentar, quando o crente lhe dava em troca uma bolsa.

 um
  desmoronamento social. O parasita teve uma famosa idia em embrenhar-se pela Igreja. A dignidade sacerdotal
   uma capa magnfica para a estupidez, que toma
    o altar como um canal de absorver ouro e regalias.

Assim colocado no
  centro da sociedade, desmoraliza a Igreja, polui a f, rasga as
    crenas do povo. Entra, todos o consentem, no centro das famlias, sem
      haver sacudido o p das torpezas que lhe nodoa as sandlias. Dominou imoralmente as
        massas, os espritos fracos, as conscincias virgens.

Esta transformao do parasita
  no tende por ora a desaparecer; a fogueira de J. Huss no queimou s o grande apstolo,
    devorou tambm o
      vestbulo desse edifcio de misria levantado por uma turba de parasitas, parasita da f, da moralidade e
        do futuro.

Em poltica,
  galga, no sei como, as escadas do poder, tomando uma opinio ao grado das
    circunstncias, deixando-a ao paladar das situaes, como uma verdadeira
    maromba de arlequim. Entra no parlamento com a fronte levantada, votado pela
    fraude, e escolhido pelo escndalo.

Exguo de luz
  intelectual, -- toma l o seu assento e trata de palpar para apoiar
    as maiorias. No pensa mal: quem a boa rvore se encosta...

Alguns sobem
  assim; e todos os povos tm sentido mais ou menos o peso do domnio desses bomios de
    ontem.

Deix-los subir s mesas supremas do
  festim pblico. Mas tenham cuidado na solidez das cadeiras em que se sentarem.

Na diplomacia, 
  mais fcil o ingresso ao parasita. Encarta-se a em qualquer legao
    ou embaixada, e vai saltitar em Paris ou
  em Viena. L
    representam
    tristemente a ptria que os viu nascer, na massa coletiva da
      embaixada ou da legao. O que faz de melhor, esse parvenu sem
        gosto,  brilhar na arte das roupas, como corifeu da moda que . J  muito.

Podia, se no temesse fatigar, fazer uma
  enumerao mais longa das famlias de parasitas que irradiam destas espcies
  cardeais. Seria, entretanto, uma longa histria que demandaria mais largo
  espao; e no caberia nestas ligeiras aquarelas.

O parasita  to antigo, creio
  eu, como o mundo, ou pelo menos quase.

Em economia
  poltica  um elemento para estacionar o enriquecimento social; consumidor que
  no produz, e que faz exatamente a
    mesma figura que um zango na repblica das abelhas.

Extinguir o parasita no  uma operao de dias,
  mas um trabalho de sculos. Os meios no os
    darei aqui. Reproduzo, no moralizo.

III

O
  EMPREGADO PBLICO APOSENTADO

Os Egpcios
  inventaram a mmia para conservarem o cadver atravs dos
    sculos. Assim a matria no desapareceria na morte; triunfava dela, do que temos alguns
      exemplos ainda.

Mas no existiu s
  l esse fato. O empregado pblico no se aniquila de todo na aposentadoria; vai
    alm, sob uma forma curiosa, antediluviana, indefinvel; o que chamamos
    empregado pblico aposentado.

Espelho  rebours, s reflete o passado, e por ele chora como uma criana.  a elegia
  viva do que foi, salgueiro do carrancismo, carpideira dos velhos sistemas.

Reforma,  uma palavra que no
  se diz diante do empregado pblico aposentado. H l nada mais revoltante do que
    reformar o que est feito? abolir o
      mtodo! desmoronar a ordem!

Atado assim ao poste do carrancismo,
  eterno lbaro do que  moderno, o empregado pblico aposentado  um dos mais
  curiosos tipos da sociedade. Representa o lado cmico das foras retroativas
  que equilibram os avanos da civilizao nos povos.

 o tipo que hoje trago  minha tela.
  So variveis o carter e a feio desta individualidade, mas eu procurarei dar-lhe
    os traos mais finos,
      os mais vivos.

Conceber um aposentado sem
  caixa de rap  conceber o sol sem luz, o oceano sem gua. Uma pertence ao outro, como a
    alma pertence ao
      corpo; so inseparveis. E tm razo! O que vale uma caixa de rap, no o compreende
        qualquer profano.  o adubo oportuno de uma conversa rida e suada sobre qualquer reforma de
          governo.  o meio
            de conhecimento com um potentado de quem se espera alguma coisa.  a caixa de Pandora.  tudo, quase
              tudo.

E no parece.
  Aquele utenslio to mesquinho, em um outro qualquer, est circunscrito na estreita
    esfera do nariz; nas mos do aposentado, transforma-se; em vez de se transformar o
      depsito de um vcio, torna-se o instrumento de certos fatos polticos
        que muitas vezes
          parecem nascer de causas mais altas.

Este prestgio do
  empregado pblico aposentado no pra s na caixa,
    estende-se por todos os acessrios daquele curioso indivduo. Na gravata, na
    presilha, na bengala, h certo ar, uma nuana especial, que no est ao alcance
    de qualquer. Ou natureza, ou estudo, a aposentadoria traz ao empregado pblico esses dotes, como um
      presente de npcias.

Ora, apesar deste metdico das
  formas, no esto limitadas a as vistas do aposentado. H naquele crebro alguma finura
    para se no entregar
      exclusivamente a essas ninharias. E a poltica? A poltica l o espera; l o espera o
        governo; l o espera o teatro, as modas, os
          jornais, tudo o espera.

No  maledicente, mas gosta de cortar o
  seu pouco sobre as coisas do pas. No  um vcio,  uma virtude cvica: o
  patriotismo.

O governo, no importa a sua cor
  poltica,  sempre o bode expiatrio das doutrinas retrgradas do empregado pblico
    aposentado. Tudo quanto tende ao desequilbrio das velhas usanas  um crime para esse vivo da secretria,
      arquelogo dos costumes, antiga vtima do ponto, que no compreende que haja nada alm das
        raias de uma existncia
          oficial.

Todos os progressos do pas esto ainda
  debaixo da lngua fulminante deste cometa social. Estradas de ferro!  uma
  loucura do modernismo! Pois no bastavam os meios clssicos de transporte que at aqui punham em comunicao localidades afastadas?
    Estradas de ferro?

Desta
  sorte todas as instituies que respiram revoluo na ordem estabelecida das coisas -- podem contar com um
    contra do empregado pblico
      aposentado. Este meio mesmo de retratar
   pena, como fao atualmente,
    revoltaria o .esprito tradicional da grande mmia do passado. Uma inovao de mau gosto, dir
      ele.  verdade; no representa apenas a superfcie da epiderme, vai s
  camadas mais ntimas da matria organizada.

O
  empregado pblico aposentado poder deixar de comer, mas l perder um jornal, l perder um jubileu poltico ou sesso do parlamento,  tarefa que
  no lhe est nas foras.

O jornal  lido, analisado com toda a finura de esprito
  de que ele  capaz. Devora-o todo, anncios e leiles; e se no vai ao folhetim,  porque o folhetim  frutinha do nosso tempo.

No
  parlamento,  um espectador srio e atencioso. Com a cabea enterrada nas paredes mestras de uma gravata
    colossal ouve com toda a ateno, at os menores apartes, v os pequenos
  movimentos, como profundo investigador das coisas polticas.

Ao
  sair dali, o primeiro amigo que encontra tem de levar um aguaceiro de palavras
  e invectivas contra a marcha dos negcios mais interessantes do pas.

De ordinrio o aposentado  compadre
  ou amigo dos ministros, apesar das invectivas, e
    ento ningum recheia as pastas de mais memoriais e pedidos. Emprega os
    parentes e os camaradas, quando os emprega, depois de uma longa enfiada de
    rogativas importunas.

 sempre assim!

No
  sarau o empregado pblico aposentado  pouco corts com as damas; vai procurar emoes nas alternativas de um
    lindo baralho de cartas. Mas para no faltar ao programa, l vi tachando
  de imoral aquele divertimento que tanto dinheiro absorve; fica-lhe a
  conscincia.

Onde poderemos encontrar ainda o aposentado? Ele vai por
  toda a parte onde  lcito rir e discutir sem ofensa
    pblica.

O leitor conhece decerto a individualidade de que lhe
  falo,  muito vulgar entre ns, e de
    qualidades to especiais que a denunciam entre mil cabeas. Que lhe acha? Quanto a mim  inofensiva como um
      cordeiro. Deixem-no mirar-se no espelho dos velhos usos, falar em
        poltica, discutir os governos; no faz mal.

Em uma comdia do nosso teatro, h uma reproduo deste
  tipo, o Sr. Custdio do Verso e
    Reverso. Mirem-se ali, e vero que, apesar do estreito crculo em que se move, faz plidos e
      mirrados estes ligeiros e mal distintos
        lineamentos.

IV

O FOLHETINISTA

Uma das plantas europias que dificilmente se tm
  aclimatado entre ns,  o folhetinista.

Se  defeito de suas propriedades orgnicas, ou da
  incompatibilidade do clima,
    no o sei eu. Enuncio apenas a verdade.

Entretanto,
  eu disse -- dificilmente -- o que supe algum caso de aclimatao sria. O que no estiver contido nesta
    exceo, v j o leitor que nasceu enfezado, e mesquinho de
      formas.

O
  folhetinista  originrio da Frana, onde nasceu, e onde vive a seu gosto, como em cama no inverno. De l
    espalhou-se pelo mundo, ou pelo menos por onde maiores propores tomava o
    grande veculo do esprito moderno; falo do jornal.

Espalhado pelo mundo, o folhetinista tratou de acomodar a
  economia vital de sua organizao s convenincias das atmosferas locais.
    Se o tm conseguido por toda a parte, no  meu fim estud-lo; cinjo-me ao
    nosso crculo apenas.

Mas
  comecemos por definir a nova entidade literria.

O
  folhetim, disse eu em outra parte, e debaixo de outro pseudnimo, o folhetim nasceu do jornal, o folhetinista
    por conseqncia do jornalista. Esta ntima afinidade  que desenha as
  salincias fisionmicas na moderna criao.

O
  folhetinista  a fuso admirvel do til e do ftil, o parto curioso e singular
  do srio, consorciado com o frvolo. Estes dois elementos, arredados como
  plos, heterogneos como gua e fogo, casam-se perfeitamente na organizao do
  novo animal.

Efeito estranho  este, assim produzido pela afinidade
  assinalada entre o jornalista e o folhetinista. Daquele cai
    sobre este a luz sria e vigorosa, a
      reflexo calma, a observao profunda. Pelo que toca ao devaneio,  leviandade,
      est tudo encarnado no folhetinista mesmo; o capital prprio.

O
  folhetinista, na sociedade, ocupa o lugar de colibri na esfera vegetal; salta, esvoaa, brinca, tremula, paira e
    espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas
  vigorosas. Todo o mundo lhe pertence; at mesmo a poltica.

Assim aquinhoado pode dizer-se que no h entidade mais
  feliz neste mundo, excees feitas. Tem a sociedade
    diante de sua pena, o pblico para l-lo, os ociosos para admir-lo, e a bas-bleus para aplaudi-lo.

Todos o amam, todos e admiram, porque todos tm interesse
  de estar de bem com esse arauto
    amvel que levanta nas lojas do jornal a
      sua aclamao de hebdomadrio.

Entretanto, apesar dessa ateno pblica, apesar de todas
  as vantagens de sua posio, nem todos
    os dias so tecidos de ouro para os folhetinistas. H-os
      negros, com fios de bronze;  testa deles est o dia... adivinhem? o dia de
      escrever!

No
  parece? pois  verdade purssima. Passam-se sculos nas horas que o
  folhetinista gasta  mesa a construir a sua obra.

No  nada,  o clculo e o dever que vm pedir da
  abstrao e da liberdade -- um folhetim! Ora, quando h matria e o esprito est disposto, a coisa passa-se bem. Mas quando,  falta
    de assunto se une aquela morbidez moral, que se pode
      definir por um amor ao far niente, ento
   um suplcio...

Um suplcio,
  sim.

Os olhos negros que saboreiam essas pginas coruscantes
  de lirismo e de imagens, mal sabem s vezes o que custa escrev-las.

Para
  alguns no procede este argumento; porque para alguns h provimento de matria,
  certos livros a explorar, certos colegas a empobrecer...

Esta
  espcie  uma aberrao do verdadeiro folhetinista; excees desmoralizadoras
  que nodoam as reputaes legtimas.

Escritas,
  porm, as suas tiras de conveno, a primeira hora depois  consagrada ao
  prazer de desforrar-se de uma maada que passou. Naquela noite  fcil
    encontr-lo no primeiro teatro ou baile aparecido.

A
  tnica de Nssus caiu-lhe dos ombros por sete dias.

Como
  quase todas as coisas deste mundo o folhetinista degenera tambm. Algumas das entidades que possuem essa
    capa, esquecem-se de que o folhetim 
      um confeito literrio sem horizontes vastos, para fazer dele um canal de
      incenso s reputaes firmadas, e invectivas s vocaes em flor, e
  aspiraes bem cabidas.

Constituindo assim cardeal-diabo da cria
  literria,  intil dizer que o bom senso e a razo friamente o condenam e
  votam ao ostracismo moral, ausncia de
    aplausos e de apoio.

No  este o nico abuso que se d.  costume de outros
  levantarem o folhetim como a chave
    de todos os coraes, como a foice de todas as reputaes
      indelveis.

E
  conseguem...

Na
  apreciao do folhetinista pelo lado local temo talvez cair em desagrado negando a afirmativa. Confesso apenas
    excees. Em geral o folhetinista aqui  todo parisiense; torce-se a um
  estilo estranho, e esquece-se, nas suas
    divagaes sobre o boulevard e caf Tortoni, de que est sobre um mac-adam lamacento e com
      uma grossa tenda lrica no meio de um deserto.

Alguns vo at Paris estudar a parte fisiolgica dos
  colegas de l;  intil dizer que
    degeneraram no fsico como no moral.

Fora
   diz-lo: a cor nacional, em rarssimas excees, tem tomado o folhetinista entre ns. Escrever folhetim e ficar
    brasileiro  na verdade difcil.

Entretanto,
  como todas as dificuldades se aplanam, ele podia bem tomar mais cor local, mais feio americana. Faria assim menos mal  independncia do esprito nacional, to preso a
    essas imitaes, a esses arremedos, a esse suicdio de originalidade e
  iniciativa.
